Conheça 7 vantagens da bioconstrução

Pisar com os pés descalços no barro para construir uma casa de bioconstrução é uma das coisas que você precisa fazer antes de morrer.

É uma experiência incrível e divertida que desperta nossa consciência ecológica e ao mesmo tempo nos ajuda a entender no corpo um novo conceito do que significa moradia.

Além disso, a bioconstrução tem inúmeras vantagens sobre a construção convencional. Perguntamos ao permacultor Edilson Cazeloto, o Dirço, para listar 7 vantagens da bioconstrução.

O Dirço é um ex-professor de pós-graduação de uma renomada universidade
que se mudou para o campo no auge da carreira há 17 anos e, desde então, tem ajudado outras pessoas a fazer esse processo de transição rural.

1 Bioconstrução gera conforto térmico
Quem já entrou em uma casa de bioconstrução pode comprovar: os ambientes são agradáveis para se morar. Isso acontece porque uma parede de barro absorve e libera o calor do sol lentamente. Assim, durante o dia os cômodos ficam mais frescos e, à noite, quando a temperatura externa esfria, fica mais quentinho do lado de dentro.

Em uma casa feita de bloco de cimento a temperatura externa é a mesma interna. Ou seja, mais chances de precisar de aquecimento ou ar condicionado.

2 Bioconstrução tem baixo Impacto ambiental
O cimento, sem dúvida, é um recurso valioso. Mas a utilização que a construção civil fez dela não é inteligente para a Natureza. Para produzir cimento é necessário a exploração de matéria prima, como o calcário, e a utilização de água e energia elétrica em quantidades absurdas.
Especialmente para quem mora no campo, a Bioconstrução prevê a utilização dos recursos locais, mas sem o uso exploratório. É possível utilizar terra, palha, bambu, argila, pedra, madeira para construir uma casa.

3 Bioconstrução gera menos entulho
Quem já passou por uma obra convencional vê caçambas e mais caçambas para tirar o entulho gerado por uma obra. Em uma obra de bioconstrução, os resíduos são mínimos porque a maior parte do material utilizado é biodegradável. Com isso a geração de resíduos é mínima.

4 Bioconstrução tem alta durabilidade
Há registros de casas de barro ou pedra datadas de milhares de anos espalhados pelo mundo. No Brasil, durante o período colonial, os portugueses costumavam construir casas com taipa de pilão, muitas delas que estão em pé até hoje. Já o cimento e o concreto são tecnologias mais recentes – e não há como precisar a durabilidade delas.

5 Bioconstrução é mais econômica
Uma casa de bioconstrução é, sem dúvida, mais econômica do que uma obra convencional. Estima-se que a diferença pode chegar até 40% do valor.
Mas atenção: esta economia vale quando você mesmo participa do processo construtivo.
Se toda a obra for terceirizada, o valor por metro quadrado equivale ao de uma obra convencional, pois o custo da mão de obra especializada é alta. Não é fácil encontrar bioconstrutores disponíveis para erguer uma casa.
Por isso é fundamental que os proprietários se engajem na obra, ainda que contem com bioconstrutores profissionais.

6  Bioconstrução é divertido

Quem já participou de uma obra de bioconstrução sabe o quanto é mais divertido construir uma parede de barro do que de bloco. É possível convidar os amigos, familiares para participar de mutirões, gerando um clima de coletivo. O processo de fazer colheita do bambu, separar a terra, amassar o barro, e barrear a parede despertam uma sabedoria ancestral em quem participa. Guarde esta máxima do Dirço: se não for divertido não é sustentável.

7 Bioconstrução é consciência ecológica
Bioconstrução é mais do que erguer uma moradia. Quando você entende e sente no corpo as diferenças e benefícios de uma casa de barro, desperta para a situação insustentável em que vivemos. Não é possível continuar explorando tanto recurso natural para fabricar cimento. E quando você entra em uma casa que você ajudou a erguer, juntamente com tantas pessoas queridas, utilizando materiais orgânicos, você vai ter uma noite de sono tranquila.

Oficina de Bioconstrução oferece a experiência de bioconstruir-se.

Se você quer passar pela experiência de fazer uma bioconstrução, tem uma oportunidade na sua frente. A Oficina de Bioconstrução, nos dias 20 e 21 de agosto, no Sítio Pau d’Água, em Piracaia, a apenas 100 Km de São Paulo.

O Dirço vai ensinar como erguer as paredes de barro de cob e pau a pique, que são duas das técnicas mais simples e eficientes que existem e podem ser executadas por qualquer pessoa, mesmo sem qualquer experiência.

O Sítio Pau d’Água é uma escola de sustentabilidade de técnicas alternativas e conta com estruturas erguidas em bioconstrução. Quem participar da oficina vai conhecer até a casa onde o Dirço mora que foi erguida por mais de 150 pessoas em cursos, mutirões, voluntariados e eventos.

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O que significa a bioconstrução para cada um

Saiba mais sobre a dimensão técnica, estética e ética para a construção de casas sustentáveis

Eu disse, em outra ocasião, que penso a Bioconstrução como a Vida que usa o tempo para se expressar no espaço. Queria desenvolver um pouco mais essa ideia.

Começo pensando a Bioconstrução como um processo. Que significa isso? Significa que Bioconstrução, nesse entendimento, é um “fazer orientado”, é um conjunto de ações que vão tecendo um certo sentido, um certo significado mais ou menos coerente. Como processo, a Bioconstrução tem muitas dimensões, ou seja, ela pode ser entendida a partir de múltiplos olhares e de muitos pontos de vista.

Há por exemplo, uma dimensão lúdica. Vejo isso nas casas de COB que querem se parecer com casas de Hobbits do Condado. A casa é brinquedo, é festa, é alegria.

Há uma dimensão histórica: a casa resgata e atualiza o passado. Celebra o engenho humano e sua capacidade criativa, expressa na invenção de técnicas. É o orgulho de ter feito aquela parede de Taipa de Pilão, exatamente como se fazia no Brasil colonial.

Há uma dimensão afetiva. Vejo muita gente por aqui com os olhos brilhando ao ver uma parede de Pau a pique sendo feita, “igualzinho à casa onde passei minha infância”. A casa é memória de afetos que se ergue no espaço.

Poderia falar de várias outras dimensões: espiritual, de cura, ecológica etc.

Mas, para chegar, na minha concepção de Vida que se expressa no espaço, quero falar de três dimensões em particular: a técnica, a estética e a ética.

Vejo muita gente interessada em Bioconstrução pela dimensão técnica: pessoas que querem aprender “como” fazer. Dedicam-se , muitas vezes, a pesquisar novos materiais, novas ferramentas, novos métodos. Há ai, o fascínio pelo construir que herdamos de nossos antepassados. Há o desejo de retomar àquela sensação gostosa de fazer com as próprias mãos e na qual o resultado é mais parecido com uma obra de arte do que com uma casa. E você fica olhando aquela parede de Cordwood e acha ela linda. Está torta, ok! Meio forma do prumo, tudo bem Tem uns buraquinhos onde os toquinhos não assentaram direito, tá certo. Mas “fui eu que fiz”. É a “MINHA PAREDE”, diferente de todas as paredes que a humanidade já produziu.

A dimensão estética, envolve o conceito de beleza. A Bioconstrução é seu próprio belo, tem sua própria harmonia, que deriva do fato de que casa casa é única. Ela é a paisagem e o ponto de vista sobre a paisagem ao mesmo tempo. A casa feita pelo processo da Bioconstrução meio que “emerge” no olhar. A sinuosidade, a imperfeição, o acaso, as marcas do processo construtivo, tudo se harmoniza criando um desafio para o olhar. Nem sempre são belezas fáceis. Mas, quando seu olho se acostuma, é tão difícil entrar em um apartamento sem sentir uma pobreza avassaladora. É tudo tão monotonamente reto, liso e plano…

A terceira dimensão que quero destacar é a ética. Ela é o ponto chave, que liga as outras duas. No processo da Bioconstrução, tudo converge para uma concepção do “bem”. Do “bem viver”, do “bem morar”. Mas essa concepção transborda da pequena individualidade e quer abraçar o mundo. Minha casa deve ser um “bem” para todos, humanos e não-humanos, seres vivos e inanimados. Todas as decisões técnicas passam pelo crivo da ética. Todo deslumbre estético é filtrado pela ética. “Será a minha casa, a melhor casa possível?” E aqui é o ponto chave: “minha casa colabora com a VIDA?”

Na Bioconstrução, a vida que se expressa é a vida que foi tocada pela ética, pelo desejo do bem. È essa vida, embriagada pela vertigem de todas as outras vidas, que não cabe mais no concreto. É uma Vida de Barro, que não sabe mais viver sem sentir-se participando do Bem de todas as coisas.

Quando alguém me procura para falar de Bioconstrução, eu sempre penso: “Será que emergiu outra Vida de Barro, que não cabe mais no espaço do Concreto? Será que esse desejo pela Bioconstrução é um desejo pelo Bem?”

Ausente a dimensão ética, a Casa de Barro é uma caixa vazia para abrigar uma vida que ainda é uma Vida de Concreto. A casa é “poser”, é “fake”, é uma fachada ou um espaço cenográfico disponível para quem tem alguns Reais sobrando na conta.

Acho melhor ter uma Vida de Barro numa casa de concreto, que uma Vida de Concreto em uma casa de Barro.

Bioconstruir é ser arrebatado pela vida.

 

 

O que é bioconstrução

Em 2007, eu e minha companheira na época abraçamos a ideia de construir nossa própria casa em um lote da Ecovila Clareando, em Piracaia.
Fiz vários cursos, mas a obra da nossa ex-casa foi minha verdadeira escola: 5 anos de construção errando, tentando, aprendendo, observando, fazendo, refazendo. Participei pessoalmente de todas as etapas: do alicerce ao telhado, da hidráulica e da elétrica, do tratamento de esgoto e do jardim.
Testei o que pude testar: adobe, superadobe, cob, pau a pique, cordwood, ferrocimento, Tijolos de solocimento, pedra, garrafas, alvenaria convencional… Cada parede teve uma história e uma vida. Cada parede foi uma mestra e uma companheira.
Depois disso, participei ainda de várias outras obras. Trabalhei, dei palpites, acompanhei outras casas que se iam erguendo à minha volta. Vi coisas lindas e terríveis. Vi coisas falsas, vi “posers” querendo parecer o que não eram, vi solidariedade, vi tesão, vi desencanto.
Fui – e continuo sendo – facilitador de vários cursos aqui no Sítio Pau Dágua, onde atualmente estamos construindo uma moradia coletiva.
Recebi voluntários para trabalhar em outras obras, partilhei o que sabia e fiquei mais jovem com o frescor das novas mãos sujas de barro que encontrei pelo caminho.
Depois de mais de 10 anos, me acostumei a pensar mais na bioconstrução e cheguei a algumas opiniões que quero partilhar.
O mais importante é que faço uma distinção entre Bioconstrução e Construção com barro ou com materiais naturais.
Para mim, o BIO, da bioconstução não se refere aos materiais, mas ao modo como aquela construção ocupa um lugar orgânico na VIDA de seus construtores. O BIO está nas mãos, e não no barro.
Daí que a casa não se separa de jeito nenhum da vida de seus moradores. A casa meio que emerge da vida que quer viver lá dentro, A casa expressa essa Vida que já não cabe no concreto, na Bolsa de Valores, no trabalho urbano sem sentido. A Vida e o corpo dos moradores são o prumo e o esquadro da casa: são a referência, a medida, o fim e o critério.
Por isso, Bioconstrução é sempre autoconstrução. Você pode encomendar para que alguém te faça uma casa de pau a pique, mas não será uma Bioconstrução. Falta-lhe a Vida. Falta-lhe receber no barro as pequenas gotas de sangue de seus dedos cortados pelo bambu da trama e que, de fato, fazem daquela massa uma coisa viva: um Bios.
A bioconstrução, como processo, se dá no ritmo da vida, olhando a particularidade de cada situação. Nenhuma massa de barro é igual à anterior. Nenhuma parede é como a outra. Uma bioconstrução não se constrói: se modela. Uma bioconstrução se tece como quem tece a vida, no tempo do corpo, no tempo sentido, no calor das mãos.
A Casa de Barro, essa outra comprada ou mandada fazer, também tem seu valor. Mas Bioconstrução é quando, depois de uns anos você olha aquela parede e ainda está enamorado dela. Depois de tanta história, você desperta de manhã e diz sorrindo: “Bom dia, Casa. Vamos para mais um dia?”

Por Edilson Cazeloto

permacultor-responsável pelo Sítio Pau d’Água